Economista analisa insatisfação: redes sociais criam desejos além da renda
Laura Carvalho explica a insatisfação brasileira sob Lula. Redes sociais amplificam desejos de consumo além do crescimento econômico real. Leia análise completa...

O paradoxo econômico brasileiro e a insatisfação dos brasileiros
A questão da insatisfação dos brasileiros representa um dos grandes enigmas da atual gestão presidencial. Enquanto indicadores macroeconômicos apontam melhorias significativas, a população apresenta sentimentos contraditórios sobre a situação econômica do país. Este fenômeno tem atraído a atenção de economistas e analistas que buscam compreender essa desconexão.
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, dedica-se especificamente a investigar esse descompasso. Através de pesquisas e análises, ela identifica as causas raiz dessa insatisfação dos brasileiros que persiste apesar dos avanços econômicos.
Indicadores econômicos positivos contrastarão com a percepção popular
Os dados econômicos do terceiro mandato presidencial revelam números impressionantes. O desemprego atingiu em maio deste ano seu menor nível histórico, estabelecendo-se em 5,6%. A economia cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Aproximadamente 17,5 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2022 e 2024, número que reflete impacto direto das políticas sociais implementadas.
Apesar desses avanços mensuravelmente positivos, pesquisa Genial/Quaest realizada em junho revelou que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 20% relatam melhoria. Esse contraste entre realidade econômica e percepção pública constitui o cerne da investigação de Carvalho sobre a insatisfação dos brasileiros.
Redes sociais e o consumo aspiracional como fator determinante
Um dos principais achados da pesquisa de Carvalho relaciona-se ao papel das redes sociais na formação de expectativas de consumo. A professora argumenta que as plataformas digitais criaram um novo fenômeno: o consumo aspiracional ampliado e globalizado. Diferentemente de períodos anteriores, quando as pessoas se comparavam apenas com membros de sua comunidade imediata, as redes sociais expõem continuamente padrões de vida de indivíduos pertencentes a classes muito mais elevadas.
"Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", observa Carvalho. "Você não só está vendo o que consome uma pessoa no seu bairro, na sua família, você está vendo o que consome uma pessoa da classe média europeia ou um rico no seu país". Esse acesso visual contínuo a estilos de vida aspiracionais gera sentimentos de insatisfação mesmo quando a renda pessoal cresce.
As redes sociais modificaram radicalmente o "efeito demonstração" de consumo analisado tradicionalmente pela teoria econômica. Enquanto James Duesenberry já havia documentado como indivíduos emulam o consumo de classes superiores, o alcance e a velocidade dessa comparação multiplicaram-se exponencialmente. Os desejos de consumo homogeneízam-se e globalizam-se de forma sem precedentes na história econômica.
A diferença entre os anos 2000 e o atual cenário econômico
Carvalho identifica um contraste crucial entre o período dos governos anteriores e a situação contemporânea. Nos anos 2000, durante os dois primeiros mandatos presidenciais, a distribuição de renda e o crescimento econômico expressivo permitiram que uma parcela significativa da população, anteriormente excluída do mercado consumidor, obtivesse acesso a bens básicos. Pessoas que nunca haviam viajado de avião, ou sequer possuíam geladeira, agora conseguiam essas aquisições.
"Ali nos anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide e o crescimento econômico expressivo incluíram uma parte da população no mercado consumidor que estava totalmente excluída desse mercado. Que passou a ter acesso a geladeira, a viagem de avião. Surgiu uma nova classe média, que hoje já não é mais satisfeita com esse mesmo padrão de consumo", explica a economista.
A nova classe média formada naquele período experimentou uma sensação genuína de mobilidade e inclusão. No entanto, esse grupo, agora exposto constantemente a padrões de consumo superiores através das redes sociais, não se contenta mais com o nível de consumo que antes lhe parecia aspiracional. Essa mudança fundamental nas expectativas explica parcialmente por que o crescimento econômico atual não gera satisfação equivalente à observada duas décadas atrás.
Outros fatores explicativos da insatisfação dos brasileiros
Além da questão das redes sociais e do consumo aspiracional, Carvalho identifica três fatores adicionais que contribuem para a insatisfação dos brasileiros. Primeiro, os efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar material, particularmente entre os segmentos mais pobres da população, que dedicam parcela maior de sua renda a alimentos essenciais.
Segundo, existe frustração entre uma geração crescentemente escolarizada que não encontra oportunidades de emprego compatíveis com sua formação acadêmica. O Brasil expandiu significativamente o acesso ao ensino superior, mas a estrutura produtiva não gerou empregos de qualificação correspondente. Consequentemente, profissionais universitários ocupam posições que exigem níveis menores de instrução.
Terceiro, o crescimento econômico atual ocorre sobre uma base de renda deprimida pela década anterior de estagnação. As pessoas apenas agora recuperam os níveis de renda que possuíam em 2014, e esse crescimento, embora real, não se equipara à robustez observada nos anos 2000. Essa "memória de prosperidade anterior" cria expectativas não inteiramente satisfeitas pelo desempenho atual.
Propostas para restaurar o ciclo de prosperidade econômica
Para reverter a insatisfação dos brasileiros e gerar um novo ciclo de prosperidade, Carvalho propõe uma agenda multifacetada. Primeiramente, a economia deve crescer substancialmente, elevando o nível de renda de forma que as pessoas sintam que seus salários permitem um padrão de vida confortável. O Produto Interno Bruto continua sendo métrica fundamental nesse processo.
Segundo, deve ocorrer redistribuição de renda através de uma agenda tributária ampliada. Isso inclui não apenas taxação de renda, mas também de riqueza acumulada. Carvalho destaca que "o debate tem que avançar no próximo período para alguma forma de taxação de riqueza", uma vez que a concentração de patrimônio excede a concentração de renda no Brasil. Essa acumulação perpetua a desigualdade estrutural que caracteriza a sociedade brasileira.
Terceiro, o país necessita expandir significativamente os serviços públicos de qualidade. A provisão de saúde, educação e transporte público eficientes reduz a necessidade de gasto privado, liberando renda para outras aspirações e melhorando a qualidade de vida percebida. Um serviço público robusto permite que as pessoas alcancem mais facilmente aquele padrão de vida considerado confortável.
Desigualdade estrutural e transferência de renda através da dívida pública
Carvalho também analisa como a estrutura da dívida pública contribui para a perpetuação da insatisfação dos brasileiros e da desigualdade. A dívida pública brasileira, que remunera credores com juros extremamente elevados, efetivamente transfere renda dos contribuintes para os detentores de títulos, frequentemente indivíduos de alto patrimônio que auferem retornos sem risco significativo.
"O Estado brasileiro, por meio da dívida pública elevada, que paga juros muito altos, acaba transferindo renda para os mais ricos e atuando para perpetuar essa desigualdade elevada", pontua a economista. Esse mecanismo perpetua a concentração de riqueza no topo da pirâmide econômica, mesmo quando políticas diretas de redistribuição funcionam na base.
A discussão sobre o custo distributivo da dívida permanece pouco explorada no debate público nacional, apesar de suas implicações profundas para a desigualdade estrutural. Resolver a questão da insatisfação dos brasileiros exige, portanto, uma abordagem integrada que considere não apenas a geração de empregos e renda, mas também a arquitetura fiscal e financeira do Estado.
Diversificação econômica e empregos qualificados como necessidade
A criação de empregos compatíveis com a população escolarizada constitui desafio crucial. Carvalho aponta que a estrutura produtiva brasileira necessita diversificação para gerar posições que aproveitam adequadamente a crescente qualificação da força de trabalho. Isso demanda uma política industrial deliberada que considere setores onde o Brasil possui competitividade internacional.
Além disso, é fundamental alinhar a oferta educacional com a demanda do mercado de trabalho. Instituições como o Sistema S, universidades e institutos federais devem integrar-se estrategicamente para garantir que a educação fornecida corresponda às oportunidades reais de emprego disponíveis. Essa articulação entre formação educacional e oportunidades econômicas reduz o descompasso que gera frustração entre profissionais qualificados.
Perspectivas futuras para a agenda econômica brasileira
A agenda econômica brasileira, segundo Carvalho, deve priorizar um ciclo de crescimento prolongado, robusto e redistribuidor. Apenas essa combinação permitirá que a maioria da população brasileira beneficie-se efetivamente do crescimento econômico, reduzindo a insatisfação dos brasileiros que hoje persiste apesar dos números macroeconômicos positivos.
A economista enfatiza que a solução não reside em medidas isoladas, mas em uma abordagem sistêmica que considere o papel das redes sociais na formação de expectativas, a necessidade de serviços públicos de qualidade, a tributação progressiva de renda e riqueza, e o desenvolvimento de uma estrutura produtiva moderna que gere empregos qualificados. Esse conjunto integrado de políticas pode efetivamente reconectar a realidade econômica objetiva à percepção subjetiva das pessoas, restaurando a confiança na capacidade do Estado de promover prosperidade compartilhada.