Escafandristas reinterpretam Buarque aos 82 anos
Quarteto carioca Escafandristas lança álbum com 15 músicas de Chico Buarque reinterpretadas com harmonias sofisticadas e arranjos inovadores. Ouça a crítica com...

O novo álbum do Escafandristas cantam Buarque transforma o cancioneiro do compositor
Dois anos após sua formação em 2024, o quarteto carioca Escafandristas apresenta ao público seu primeiro álbum intitulado "Escafandristas cantam Buarque", uma proposta ambiciosa de reinterpretação das obras de Chico Buarque. O lançamento estratégico ocorreu na véspera do 82º aniversário do compositor carioca, celebrado em 19 de junho, marcando um momento significativo para a música brasileira. O álbum "Escafandristas cantam Buarque" reúne 15 composições do legado de Chico em abordagens completamente distintas daquelas que conhecemos originalmente.
Sob a direção musical de Thiago Amud, que também trabalha como voz e violão, o grupo é composto ainda por Alice Passos (voz, flauta, violão e percussão), Luisa Lacerda (voz e violão) e Renato Frazão (voz e baixo). A proposta do quarteto transcende o simples conceito de releitura, posicionando-se deliberadamente fora do universo dos covers tradicionais. Embora mantenham total respeito às melodias e letras originais, os músicos do Escafandristas realizaram alterações significativas nas harmonias e estruturas rítmicas das composições.
Uma reinterpretação sofisticada distante da simplicidade do karaokê
O álbum "Escafandristas cantam Buarque" apresenta características que o tornam completamente inutilizável para contextos de karaokê, justamente pela refinada harmonização vocal que permeia cada faixa. Composições como "Brejo da Cruz" (1984) e "Sonhos Sonhos São" (1998) exemplificam a abordagem elaborada do quarteto. Na primeira, conta com a participação do cantor Giuliano Eriston, profissional que trabalha em um mercado musical desafiador para artistas que não se alinham à estética pop predominante do século XXI.
A abertura do álbum com "Construção" (1971) constitui uma proeza musical notável. A reinterpretação consegue se desvincular completamente do famoso arranjo criado pelo maestro Rogério Duprat para a gravação original do compositor. Esta escolha inteligente de abertura estabelece desde o primeiro momento o tom sofisticado que permeia toda a produção do Escafandristas cantam Buarque.
Intérpretes masculinos em destaque musical
O dueto entre Thiago Amud e Luísa Lacerda em "Morro Dois Irmãos" (1989) revela uma afinidade vocal notável entre o intérprete e o estilo de Chico Buarque. A voz de Amud se harmoniza naturalmente com a proposta do compositor, criando momentos de particular beleza. Renato Frazão, o outro intérprete masculino do ensemble, amplia essa característica vocal. Seu solo em "Cotidiano" (1971) destaca-se especialmente pelo arranjo lapidar que evoca a repetição das rotinas cotidianas através de pausas sincronizadas com os versos da composição original.
Citações musicais integram as 15 faixas
Uma estratégia criativa permeia seis das 15 faixas do álbum "Escafandristas cantam Buarque": o uso sagaz de citações musicais que enriquecem as reinterpretações. "Futuros Amantes" (1993) incorpora uma menção a "Eu te Amo" (Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim, 1980) durante a gravação, criando um diálogo intertextual sofisticado. Da mesma forma, "Corrente" (1976) se entrelaça com citação de "Mambembe" (1972).
"Morena dos Olhos d'Água" (1966) ganha dimensão adicional ao incorporar menção de "Morena do Mar" (1972), composição de Dorival Caymmi (1914-2008), além da lembrança da ciranda "Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa" (Chico Buarque e Edu Lobo, 1988). Essas conexões revelam um profundo conhecimento do repertório de Chico Buarque e da música brasileira em geral.
Participações especiais enriquecem a produção
"Assentamento" (1997) se fundamenta em um canto em uníssono que esboça emoção contida, característico da abordagem geral do álbum. A musicalidade estupenda do Escafandristas permeia as gravações realizadas no estúdio da gravadora Biscoito Fino. Contudo, é em "O que Será (À Flor da Terra)" (1976) que a emoção se eleva significativamente através de uma participação notável.
Nesta faixa, o cineasta e parceiro de Chico Buarque Ruy Guerra, com quem trabalhou em "Fado Tropical" (1973), realiza uma récita de versos ao longo de um canto majoritariamente a capella do quarteto. Esta combinação cria um momento de particular intensidade dentro do álbum "Escafandristas cantam Buarque".
Outra participação especial marca o projeto: as cinco netas de Chico Buarque – Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa Buarque – juntaram-se em estúdio pela primeira vez para cantar "As Minhas Meninas" (1987) com o quarteto. Esta gravação familiar incorpora citação do "Acalanto para Helena" (1971), canção de ninar composta pelo próprio Chico para sua filha Helena, mãe de Clara e Cecília.
O fechamento do álbum consolida a proposta
No encerramento do projeto, "Tempo e Artista" (1993) oferece um registro terno que sintetiza a proposta global do trabalho. O álbum "Escafandristas cantam Buarque" demonstra como o quarteto remodela a obra do compositor em feitio sofisticado peculiar ao grupo, em uma época na qual a música de Chico Buarque já alcança status de glória consolidada. A reinterpretação realizada pelos Escafandristas coloca o compositor entre os maiores artistas de sua época, confirmando o infinito reservado aos criadores que transcendem gerações.